Resistência genética amplia as opções contra a cigarrinha-do-arroz

BRS A705 e BGA 6914 mostram potencial contra a sogata. Veja como integrar resistência, monitoramento e manejo na lavoura de arroz.

Resistência genética amplia as opções contra a cigarrinha-do-arroz

Materiais resistentes podem reduzir os impactos da sogata, mas precisam ser combinados com monitoramento e manejo integrado.

Por que a cigarrinha-do-arroz exige atenção

A cigarrinha-do-arroz, também conhecida como sogata (Tagosodes orizicolus), passou a receber mais atenção dos produtores brasileiros após surtos registrados em diferentes regiões. Embora seja um inseto pequeno, com cerca de 2 a 3 milímetros, sua população pode crescer rapidamente e causar danos expressivos em lavouras irrigadas e de terras altas.

Ao sugar a seiva das folhas, colmos e panículas, a praga pode provocar amarelecimento, secamento e morte de tecidos. Ela também libera uma substância açucarada que favorece o desenvolvimento de fumagina, uma cobertura escura que reduz a área fotossintética das folhas.

Em situações de alta infestação, as perdas podem comprometer grande parte da produção. Por isso, a identificação de materiais com maior resistência representa uma ferramenta importante para o planejamento da safra.

O que a pesquisa da Embrapa identificou

Avaliações conduzidas pela Embrapa Arroz e Feijão apontaram a cultivar BRS A705 e o genótipo BGA 6914 como os materiais que apresentaram maior resistência à cigarrinha entre os avaliados.

Os testes consideraram aspectos da relação entre o inseto e a planta, como preferência alimentar, reprodução, desenvolvimento e sobrevivência da praga. Os resultados indicaram que esses materiais foram menos preferidos pela sogata e dificultaram seu desenvolvimento.

A BRS A705 é uma cultivar lançada em 2022. Já o BGA 6914 está armazenado no Banco Ativo de Germoplasma e pode ser utilizado como fonte de resistência em programas de melhoramento genético.

Isso não significa que esses materiais eliminem completamente o risco de infestação. A resistência deve ser entendida como uma camada de proteção dentro de um programa mais amplo de manejo.

Como transformar a informação em decisão no campo

Antes de escolher uma cultivar, o produtor precisa avaliar se o material é adequado ao sistema de produção, à região, ao ciclo desejado, ao potencial produtivo e às características comerciais do arroz. A resistência à sogata é um diferencial relevante, mas não deve ser analisada isoladamente.

Na prática, o planejamento pode incluir quatro frentes:

1. Monitoramento frequente

A inspeção deve ser realizada desde as fases iniciais da cultura, observando a presença de adultos, ninfas, amarelecimento, secamento e sinais de fumagina. O registro das áreas afetadas ajuda a identificar focos e acompanhar a evolução da população.

Como a cigarrinha é pequena e os sintomas podem ser confundidos com outros problemas, a confirmação em campo e o apoio de um profissional habilitado são importantes antes de qualquer decisão de controle.

2. Uso de materiais mais tolerantes ou resistentes

Quando disponíveis e adaptadas à realidade da propriedade, cultivares com maior resistência podem reduzir a preferência e o desenvolvimento da praga. Essa estratégia também pode diminuir a pressão para intervenções químicas, especialmente quando associada a outras medidas.

A disponibilidade comercial, as recomendações regionais e as características agronômicas da cultivar devem ser verificadas junto a obtentores, assistência técnica e órgãos de pesquisa.

3. Preservação do controle biológico

A aplicação indiscriminada de inseticidas pode eliminar inimigos naturais e favorecer desequilíbrios no agroecossistema. Por isso, decisões de manejo devem considerar o nível de infestação, o estágio da cultura, a presença de organismos benéficos e as recomendações técnicas e legais vigentes.

Segundo o contexto da pesquisa, ainda não havia inseticidas registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária especificamente para o controle da cigarrinha-do-arroz. Portanto, o uso de produtos deve seguir rigorosamente os registros oficiais, a bula e a orientação de um responsável técnico.

4. Organização das informações da lavoura

Mapear ocorrências, datas de inspeção, condições climáticas, cultivar utilizada e medidas adotadas melhora a tomada de decisão. Com histórico organizado, o produtor consegue comparar talhões, reconhecer padrões e planejar ações com mais antecedência.

Imagens de satélite e índices como o NDVI podem ajudar a localizar áreas com redução de vigor e priorizar vistorias. Porém, eles não substituem a inspeção de plantas, pois o estresse observado na imagem também pode estar relacionado a deficiência nutricional, falha de irrigação, doenças ou outros insetos.

Resistência é parte de uma estratégia maior

A descoberta de fontes de resistência pela Embrapa contribui para o melhoramento de novas cultivares e amplia as alternativas disponíveis para a rizicultura. No entanto, a resposta mais consistente tende a vir da combinação entre genética, monitoramento, conservação de inimigos naturais, manejo adequado da lavoura e decisões baseadas em registros.

Para o produtor, o principal aprendizado é evitar soluções isoladas. Acompanhar a lavoura desde o início, reconhecer os primeiros sinais e comparar o desempenho dos talhões pode reduzir custos, proteger o potencial produtivo e evitar intervenções desnecessárias.

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